Muito antes das redes sociais, dos streamings e da facilidade de viralizar uma música com poucos cliques, MC Paty já construía seu nome no funk carioca com estratégia, personalidade e uma visão artística diferente da maioria dos artistas da época.
Conhecida como a “Diva do Funk” — título dado pelo lendário MC Catra —, MC Paty se tornou uma das figuras femininas mais marcantes da cena funk nos anos 90 e 2000. Sua trajetória, porém, foi construída em uma época onde conquistar espaço como mulher dentro do gênero exigia muito mais do que talento.
Paty começou sua caminhada em 1996 apostando justamente no caminho oposto ao que era comum naquele momento. Enquanto muitas artistas focavam apenas em performance e visual, ela decidiu investir em atitude, identidade e letras que carregassem presença. A proposta rapidamente chamou atenção dentro dos bailes e abriu portas para projetos importantes.
Entre eles estava o Bonde das Minas, grupo que ajudou a fortalecer a presença feminina no funk carioca. Com uma proposta considerada inovadora para a época, o projeto reunia estética forte, carisma e músicas que rapidamente ganharam espaço nas equipes de som e nas comunidades.
Mas talvez uma das partes mais simbólicas da trajetória de MC Paty seja a maneira como ela fazia sua própria divulgação. Sem empresário poderoso, internet ou grandes estruturas, a artista usava dinheiro da própria pensão para gravar MDs e fitas cassete, distribuindo pessoalmente o material em favelas, praças e encontros de carros. Era o tipo de correria que moldou uma geração inteira do funk raiz.
Outro ponto marcante da sua carreira foi a criação da própria imagem artística. Paty conta que entendia a “MC Paty” como uma personagem construída para os palcos. O uso do aplique de cabelo, por exemplo, fazia parte dessa identidade visual e ajudava a separar a artista da vida pessoal. Em uma época onde branding artístico praticamente nem era discutido no funk, ela já entendia a importância de criar uma figura forte e memorável.
Ao olhar para o cenário atual, MC Paty também faz reflexões sobre as mudanças dentro do gênero. Segundo ela, o funk de antigamente tinha mais preocupação com mensagem, união entre artistas e fortalecimento coletivo. Ainda assim, reconhece a transformação natural do movimento e reforça a importância de manter viva a história de quem ajudou a construir a cultura desde o início.
A artista também relembra com nostalgia a era das lojas de discos, dos vinis, CDs e da experiência física de consumir música — um contraste enorme com a velocidade do mercado digital atual.
Mais do que uma cantora, MC Paty representa uma geração de mulheres que abriram espaço no funk quando quase ninguém acreditava que aquilo poderia virar carreira, legado e cultura popular de alcance nacional.
